Mestre Paulinho Sabiá
Mestre Paulinho Sabiá começou na capoeira aos dez anos, nas ruas de Niterói, em 1969.
É um homem sereno, calmo e esguio, que pratica uma capoeira silenciosa e aérea, cheia de finura e leveza. Foi na rua que, ainda criança, viu jogar e começou a aprender. Em 1972, entrou para o grupo Rio Antigo. Naquela época, a capoeira era uma prática discriminada, reservada aos marginalizados e aos pobres (o que, num país onde a aparência social conta muito, dificultava assumi-la abertamente). Era uma capoeira chamada de “capoeira de subúrbio”. Alguns tinham tido contato com Mestre Bimba. Imitavam o que tinham visto, sem pertencer a nenhum estilo.
Hoje, Paulinho Sabiá é mestre do grupo Capoeira Brasil, que fundou em 14 de janeiro de 1989 com Mestre Paulão do Ceará e Mestre Boneco. Os três vinham do grupo Senzala, que deixaram em 1986. Trabalhando juntos, os três atletas criaram um novo método de ensino, desenvolvendo a criatividade e o salto no jogo. Foi Mestre Paulão quem teve a ideia, ao observar as crianças pequenas que trabalhavam como vendedores ambulantes nas ruas. Assim, para desviar dos golpes, ele criou novas técnicas bastante acrobáticas. Antes, o jogador vinha ao pé do berimbau, saltava e o jogo começava.
O grupo pratica o estilo Regional, mas inclui também aulas de Angola, indispensáveis para melhorar o jogo. O grupo se propõe a ensinar o jogo da maneira como Mestre Bimba o aprendeu, e não da maneira como ele o ensinou.
Há 18 anos, Mestre Paulinho Sabiá desenvolve um projeto que lhe é muito caro: ajudar e formar crianças em situação de grande vulnerabilidade. O trabalho consiste em cadastrar as crianças, dar banho nelas antes e depois da aula, oferecer um lanche e, uma vez por mês, cortar o cabelo delas. Mestre Sabiá nos conta que é um projeto pessoal, que realiza sem ajuda financeira. No entanto, ele está elaborando um novo projeto baseado no primeiro, desta vez com o apoio do poder público, que inclui aulas de português e de alfabetização, além da atuação de psicólogos e assistentes sociais para garantir uma melhor continuidade depois das aulas. O projeto se chama “Criança Cidadã”, e existem outros do mesmo tipo dentro do grupo Capoeira Brasil em outras cidades, como Rio de Janeiro ou Fortaleza. Mestre Sabiá explica que, graças a esses projetos, muitas crianças encontram um futuro menos sombrio do que aquele que lhes estava reservado; algumas chegam até a ir para a Europa ou os Estados Unidos para ensinar, por sua vez. Outras, porém, podem cair na delinquência, como um certo garoto que se tornou um malandro de grande fama.
Mestre Paulinho Sabiá aceita a ideia de ver surgirem mestres de outros países. Não tem preconceitos e chega a citar nomes de “companheiros de trabalho” que formam alunos e professores no exterior. Um dia isso vai ter que acontecer, nos diz ele, sem nenhuma amargura. Sobre a presença feminina no universo da capoeira, ele nos diz que ela é bastante recente nesse meio: as mulheres praticam há apenas uns trinta anos, contra quatro séculos para os homens. Na época de Mestre Bimba, a única mulher era Maria Homem, que praticou até os anos cinquenta. Depois da explosão da capoeira, elas se tornaram jogadoras, a ponto de lançar a moda entre as mulheres.
Sobre a história da capoeira, Mestre Paulinho Sabiá não confirma nenhuma teoria. Ele diz que não existem provas de que ela tenha nascido na África e acredita até que nasceu no Brasil a partir dos costumes dos africanos (de fato, o círculo – a roda – é um costume africano, ao contrário da fila, que é indígena). Os escravizados tinham a necessidade de se libertar e de se defender. A capoeira é um conjunto de tradições misturadas, como a dança da zebra ou a ladja (encontrada nas Antilhas), vindas de escravizados de diversas origens culturais. As etnias africanas eram misturadas de propósito para evitar revoltas. Os três polos da capoeira eram Rio de Janeiro, Salvador da Bahia e Recife. Mestre Sabiá cita o documento mais antigo sobre a capoeira, que data de 1738 e trata da construção de uma prisão para prostitutas, ladrões e capoeiras. Ficava provado que os capoeiristas eram uma classe à parte, diferente dos ladrões e de outros criminosos. Eles trabalhavam em encontros políticos ou procissões para garantir a segurança.
Naquela época, a “roda” era animada por um berimbau e dois pandeiros. O atabaque, o reco-reco e o agogô vieram depois. Um violonista acompanhava as apresentações com canções e improvisos musicais cantados. Mestre Sabiá sente saudade do tempo em que cada um tinha seu próprio estilo. Hoje, diz ele, todos se movem da mesma maneira, sem muita originalidade.
Mestre Paulinho Sabiá vê o futuro com confiança. Ele é a favor da competição na capoeira: é uma linguagem atual, mas ele faz a diferença em relação a uma capoeira esportiva demais, que anula a criatividade. A competição é chamada de “festival de capoeira” e inclui o canto, o toque dos instrumentos e também a sua fabricação. São seis apresentações, individuais e em dupla, e oito jurados avaliam a maneira de jogar, a velocidade e o jogo, um pouco como numa escola de samba. Mestre Sabiá defende a manutenção de uma certa tradição, que deve evoluir sem modificar a essência da capoeira. Antigamente havia três berimbaus; hoje há apenas um. O que valia em 1910 já não está na moda hoje em dia, mas a essência continua a mesma. O espaço de treino de Mestre Sabiá é forrado de fotos e reportagens sobre ele, sobre a capoeira, seu grupo, seus amigos e seus alunos.
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MANTRAS
Liderar não é impor. É inspirar.